Cadelinha é treinada para identificar câncer em urina

Cachorrinha aposentada da polícia é estrela de estudo científico brasileiro sobre identificação de câncer de próstata em amostras de urina.

cadela cheirando tumor prostata

Uma cadela aposentada pela polícia é a personagem principal de um estudo científico na luta contra o câncer. Ela atende pelo sugestivo nome de Life, que quer dizer vida. A cadelinha brincalhona traz no nome a esperança de quem luta contra o câncer. Life foi treinada para ajudar no diagnóstico da doença.

A cachorrinha é da raça Pastor Belga de Malinois e já trabalhou na Polícia Militar de Goiás. Foi aposentada após ter sido atacada por um Pitbull.

A pata machucada não foi problema para Ricardo, que adotou Life e levou a cadelinha para Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. “Na hora que eu bati o olho nela e joguei uma bolinha para ela, falei: é o cachorro que eu preciso. Vou levar embora’”, conta Ricardo Cazarotte.

Ricardo é treinador de cães da PM. E precisava de um cachorro para um projeto ousado. Ele começou a treiná-la para encontrar indícios de tumores de próstata na urina de pacientes.

“Eu estou fazendo que ela aprenda a sentar a hora que ela tenha que sentar e cheirar, pôr o nariz, o focinho, aonde eu necessito que ela coloque”, explica Ricardo.

Há dois anos, a rotina deles é do canil para o centro de treinamento. Para Life, tudo não passa de brincadeira. Mas ela está ajudando a ciência.

O Ricardo também teve que estudar as condições ideais para realização do teste. Ele não pode ser feito em qualquer lugar. Tem que ser em um ambiente climatizado, com temperatura entre 25ºC e 30ºC, e a urina precisa ser congelada antes. “Porque vai manter as propriedades da urina e, quando a gente descongela, chegamos à temperatura ideal, fica muito mais fácil, porque as moléculas se desprendem e o cão consegue localizar”

As amostras de urina foram doadas pela USP de Ribeirão Preto. O treinador usa seis. Cinco são identificadas com a letra ‘C’. Exames de ‘controle’, ou seja, urina de pessoas que não têm a doença.  E uma das amostras tem o ‘P’, de ‘positivo’ para o câncer. Os exames são distribuídos aleatoriamente em hastes de metal. A Life para em frente à amostra do paciente com câncer, na primeira haste.

Para repetir o teste, o treinador descarta a amostra já identificada. Em seguida, a urina do paciente com câncer é colocada na haste três. Mais uma vez, Life acerta.

A cadela fez o teste 402 vezes e não errou nenhuma. Mas qual a explicação para Life identificar sinais da doença na urina de pacientes com câncer?

Enquanto o olfato humano conta com cerca de 5 milhões de células sensoriais, o cachorro tem 220 milhões dessas células. Isso faz com que ele tenha muito mais sensibilidade para sentir cheiros.

Os pesquisadores sabem que o odor da urina do homem com câncer de próstata é diferente que o de homens saudáveis.

O câncer de próstata é o mais comum entre os homens, responsável por mais de 22% dos diagnósticos do Brasil. Uma estimativa do Instituto Nacional do Câncer mostra que só este ano 68 mil novos casos devem ser confirmados. O problema é que para ter essa confirmação o homem precisa passar uma biópsia.

“A biópsia é um exame invasivo e tem até risco de morte. Não é grande mas existe: menos de 1”, avalia Rodolfo Reis, pesquisador da USP de Ribeirão Preto.

Agora, o desafio dos pesquisadores é descobrir que substância é essa que a Life consegue farejar na urina de pacientes com câncer.

Nos Estados Unidos, cachorros são usados para detectar câncer há mais de 10 anos. A diretora da fundação In Situ, referência nesse tipo de estudo, diz que não existe uma raça ideal para isso.

Tudo depende do temperamento do cachorro. “O que nós observamos é que o temperamento, a personalidade, se o cachorro teve algum treinamento anterior”, diz Dina Zaphiris.

Na fundação, pastores alemães e até vira-latas ajudam a encontrar diversos tipos de tumor: no ovário, no pulmão, na mama. E quanto mais novinho o cão, mais fácil o treinamento.

Por enquanto, a pesquisa brasileira está só começando. E ela não substitui o exame clínico. Mas, no futuro, estudos como o da cadelinha Life podem levar a um diagnóstico mais rápido. E quanto mais rápido, maiores as chances de cura.

“São estudos iniciais, cabe ainda publicações, reconhecimento, para a gente poder usar isso de maneira definitiva. Esse caminho é excelente uma vez que você evieta desconforto para o paciente. É muito bem-vindo”, afirma Roberto Machado, médico urologista do Hospital do Câncer de Barretos.

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