Colunistas

O dr. Licio Velloso analise recente estudo sobre a eficácia de programas assistidos de emagrecimento, como os Vigilantes do Peso.

programas como o vigilantes do peso
por Licio A. Velloso*

Frente ao rápido crescimento do número de pessoas obesas no planeta, uma série de programas de orientação alimentar e de mudança de estilo de vida têm sido criados e oferecidos à população (por exemplo, Weight Watchers – Vigilantes do Peso). Entretanto, poucos estudos avaliaram a eficácia real desse modelo de programa.

Um estudo recente, conduzido por pesquisadores britânicos, avaliou o impacto de um programa de mudança de estilo de vida e comportamento alimentar em 1.267 pessoas. As pessoas foram divididas em dois grupos:

  • Grupo 1: orientação verbal e uso de material de autoajuda;
  • Grupo 2: inclusão em programa de mudança de estilo de vida no modelo do Vigilantes do Peso.

Os participantes foram acompanhados por dois anos. Ao final do primeiro ano de acompanhamento, os participantes do Grupo 1 haviam perdido 3,2 kg, enquanto que os participantes do Grupo 2 haviam perdido 6,7 kg. Ao final de dois anos, participantes do dois grupos recuperaram um pouco do peso perdido, porém, ainda assim, houve diferença significativa entre os dois grupos, sendo que participantes do Grupo 1 estavam 2,3 kg abaixo do peso inicial e participantes do Grupo 2 estavam 4,3 kg abaixo do peso inicial.

Além dos benefícios na perda de peso, os participantes do Grupo 2 apresentaram ainda redução mais acentuadas dos níveis de glicose no sangue. Outros parâmetros, como pressão arterial e colesterol, tiveram reduções similares entre os dois grupos. Assim, os pesquisadores concluem que programas de mudança de estilo de vida assistidos no formato do Vigilantes do Peso têm resultados melhores que programas de auto ajuda, resultando em maiores reduções de peso e de glicose no sangue. Deve ser enfatizado que tais programas não utilizam medicamentos ou qualquer tipo de suplemento ou alimento modificado, sendo única e exclusivamente baseados em orientação e acompanhamento.

 

Principal referência para esta postagem: hern Lancet 2017 389:2214.
Texto publicado originalmente no blog http://cienciasaudeliciovelloso.blogspot.com.br

 

perfil licio a velloso unicamp
SOBRE O AUTOR:

 

Licio A. Velloso é Professor de Medicina na UNICAMP. Atua nas áreas de obesidade, doenças metabólicas, inflamação e resposta do sistema imune. Autor de mais de 200 artigos científicos. Membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador do OCRC.

A cirurgia bariátrica é um método eficaz para combater o sobrepeso em adultos - mas e em adolescentes? O pesquisador Licio Velloso, do OCRC, analisa um recente estudo científico sobre o tema.

cirurgia bariatrica em adolescentes
por Licio A. Velloso*

Aobesidade infanto-juvenil é, hoje, um dos temas que geram maior preocupação com relação à saúde pública no mundo. O desenvolvimento precoce da obesidade tem um impacto negativo muito importante na saúde do adulto. Há risco maior de se desenvolver de forma precoce doenças como diabetes, aterosclerose e hipertensão. Em decorrência disso, adultos que foram crianças obesas têm risco elevado para sofrerem infarto do miocárdio (ataque cardíaco) ou acidente vascular cerebral (derrame) quando ainda relativamente jovens. Existem também evidências de que adultos que foram crianças obesas têm menor rendimento profissional, perdem mais dias de trabalho e custam muito mais para os sistemas de saúde.

Não existe hoje qualquer forma de tratamento para a obesidade que seja mais eficiente que a cirurgia bariátrica. 

Com todas essas informações em mente, pesquisadores têm se empenhado na busca por soluções que previnam o desenvolvimento precoce da obesidade e tratem adequadamente (e com bons resultados) as crianças e adolescentes que já são obesos. Infelizmente, a maior parte das abordagens que tiveram por objetivo modificar o estilo de vida das pessoas, levando-as a se alimentar de forma mais saudável e a praticar mais exercícios, tiveram resultados muito inferiores ao desejável. Assim, como as abordagens terapêuticas disponíveis não são eficientes, pesquisadores decidiram testar um método muito mais invasivo:  a cirurgia bariátrica.

 

CIRURGIA BARIÁTRICA EM ADOLESCENTES – UM MÉTODO EFICAZ PARA REDUZIR O SOBREPESO?

adolescente obesa fazendo exercicios fisicos

A cirurgia bariátrica é um procedimento aprovado para tratar adultos obesos, desde que estes tenham obesidade grave [índice de massa corporal (IMC) maior que 40] ou que tenham obesidade moderada (IMC maior que 35), porém com alguma doença que aumente o risco cardiovascular, como hipertensão arterial, diabetes ou aterosclerose.

O IMC é calculado da seguinte forma = peso (kg)/altura (m)2

Não existe hoje qualquer forma de tratamento para a obesidade que seja mais eficiente que a cirurgia bariátrica. Entretanto, a cirurgia bariátrica não é isenta de riscos. Existe o risco intra-operatório, como problemas com anestesia, ou um sangramento excessivo que seja difícil de ser controlado pelo cirurgião. Existe o risco pós-operatório imediato, por exemplo, infecções ou sangramentos tardios. E existe ainda o risco tardio, como por exemplo deficiências de vitaminas e nutrientes (por causa das modificações cirúrgicas do estômago e intestino, o paciente passa a ter deficiência na absorção de algumas vitaminas e nutrientes).

Os benefícios da cirurgia bariátrica para pessoas obesas é comprovado em diversos estudos científicos, sempre realizados com adultos. Agora, uma nova pesquisa estudou sua eficácia entre os jovens.

Mesmo considerando todos estes riscos, ainda assim, são inquestionáveis os benefícios trazidos pela cirurgia bariátrica. Entretanto, os estudos que nos levam a tais conclusões foram feitos em adultos. Com o objetivo de avaliar os riscos e benefícios da cirurgia bariátrica em adolescentes, um grupo de pesquisadores norte-americanos avaliou 242 adolescentes obesos que foram submetidos ao procedimento cirúrgico. A idade média dos participantes era 17 anos, o IMC era 53 (ou seja, muito obesos) e 12% deles já manifestava diabetes.

O estudo acompanhou os jovens por três anos após a cirurgia. De forma parecida com o que ocorre em adultos, seis meses após a cirurgia, os jovens já haviam perdido 30% do peso inicial. Ao longo do estudo, houve redução considerável e benéfica dos níveis de glicose e lipídeos (colesterol e triglicerídeos) no sangue. Houve, ainda, redução da pressão arterial e melhora da função dos rins. Além disso, houve indiscutível melhora global na qualidade de vida e na autoestima.

Apesar dos benefícios, alguns problemas apareceram. Os principais detectados foram:

  • deficiências de algumas vitaminas, particularmente vitamina B12, e
  • deficiência de ferritina, uma proteína importante para armazenar ferro no nosso organismo.

 

CONCLUSÕES DO ESTUDO

Os pesquisadores concluíram que, considerando o grau de obesidade e os riscos que esta condição traz a médio e longo prazo, a cirurgia bariátrica surge como uma opção terapêutica eficiente e com baixo risco, podendo ser considerada uma opção terapêutica em adolescentes. As deficiências de vitaminas e microelementos podem ser facilmente repostas, desde que os pacientes sejam adequadamente acompanhados por uma equipe multidisciplinar qualificada.

Assim, enquanto não dispomos de métodos menos invasivos e igualmente ou mais eficientes, a cirurgia bariátrica começa a ser considerada como uma alternativa para o tratamento também dos nossos jovens muito obesos.

 

Principal referência para esta postagem: Inge TH. The New England Journal of Medicine 2016 374:113.
Texto publicado originalmente no blog http://cienciasaudeliciovelloso.blogspot.com.br

 

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SOBRE O AUTOR:

 

Licio A. Velloso é Professor de Medicina na UNICAMP. Atua nas áreas de obesidade, doenças metabólicas, inflamação e resposta do sistema imune. Autor de mais de 200 artigos científicos. Membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador do OCRC.

Quais são os tipos de exercício que existem - e qual deles é o mais eficaz para quem deseja perder peso? O dr. Licio Velloso, da FCM-UNICAMP e pesquisador do OCRC, discute o assunto.

 

Sempre que pessoas procuram o médico com o objetivo de tratar doenças metabólicas (obesidade e diabetes) ou cardiovasculares, recebem a recomendação não apenas de modificar seus hábitos alimentares, mas também para aumentar a atividade física. Nesta situação, uma pergunta frequente é…

qual o melhor tipo de atividade física para quem está obeso?

Antes de discutir especificamente esta questão, é importante que sejam definidos alguns conceitos e que alguns alertas sejam feitos.

 

ALGUNS ALERTAS

Pessoas sedentárias nunca devem iniciar atividades físicas sem uma avaliação médica prévia

Vamos começar pelos alertas. Muitas pessoas passam anos – ou até a vida inteira – sem realizar qualquer atividade física de forma regular. Tais pessoas são consideradas sedentárias. Ao procurar um médico, a pessoa sedentária deverá ser submetida a exames cardíacos, vasculares e metabólicos antes de receber uma recomendação para prática de exercícios. Isto é muito importante pois, se a pessoa nunca fez atividade física na vida (ou fez muito pouco), existe o risco de ser portadora de algum problema que possa se manifestar quando ela começar a se exercitar. Existem problemas do coração, dos vasos sanguíneos ou outros que podem ficar silenciosos quando a pessoa pratica pouco ou nenhum exercício, porém podem passar a se manifestar de forma intensa e com grande risco quando a pessoa faz exercício. Assim, o alerta aqui é para que as pessoas sedentárias nunca iniciem atividade física sem uma avaliação médica prévia.

 

CONCEITOS: OS TIPOS DE ATIVIDADE FÍSICA

Quanto aos conceitos, uma dúvida comum quando se inicia a atividade física é qual tipo de atividade física deve ser realizada.

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, existem quatro tipos de atividade física:

  • aeróbia,
  • fortalecimento da musculatura,
  • fortalecimento dos ossos e
  • alongamento.

Para simplificar nossa conversa, vamos nos concentrar nas atividades aeróbias e de fortalecimento da musculatura.

tipos de exercicio fisico

Na atividade física aeróbia, a pessoa exercita vários grupos musculares (pernas, braços, abdome) de forma contínua e não muito intensa, por períodos relativamente longos de tempo. Espera-se que durante a execução da atividade física aeróbia ocorra um moderado aumento das frequências respiratórias e cardíacas e que, com o passar do tempo de treinamento, o condicionamento físico da pessoa vá melhorando gradativamente. Exemplos de atividades aeróbias são:

  • caminhada em ritmo acelerado por tempo moderadamente longo;
  • corrida leve ou moderada por tempo relativamente longo;
  • ciclismo em ritmo leve ou moderado por tempo relativamente longo;
  • natação em ritmo leve.

Na atividade física para fortalecimento muscular, a pessoa exercita, em momentos distintos, determinados grupos musculares, colocando uma certa carga de resistência que exige a aplicação de força para que o exercício possa ser executado. Em geral, em cada ciclo de exercício repetem-se os movimentos algumas vezes, e em seguida o grupo muscular exercitado é alterado. Espera-se que, ao longo do tempo, a força e a massa muscular de todos os grupos de músculos exercitados vá aumentando. A musculação é o exemplo típico de atividade física para fortalecimento da musculatura.

 

E ENTÃO, QUAL O MELHOR TIPO DE EXERCÍCIO?

Muito bem, com estes alertas e conceitos em mente, vamos partir agora para a resposta da nossa pergunta principal, ou seja; qual tipo de exercício deve ser realizado.

A escolha do tipo de exercício depende muito do objetivo a ser alcançado. Assim, nesta postagem escolhi a seguinte situação: uma pessoa (pode ser homem ou mulher) com mais de 60 anos de idade, obesa e sedentária que procura o médico para perder peso. Quando pacientes idosos são submetidos a abordagens que levam à perda de peso, há o risco de que, em paralelo à perda de peso, ocorra também perda de massa muscular, aumentando a fragilidade e o risco de lesões. Isto pode ser um problema sério para pessoas nesta faixa etária.

Assim, um grupo de pesquisadores americanos realizou uma pesquisa na qual acompanhou 141 pessoas durante 6 meses. Os pacientes foram divididos em três grupos: no primeiro grupo, receberam recomendação dietética e foram orientados à prática de atividade física aeróbia; no segundo grupo, receberam a mesma orientação dietética, porém realizaram atividade para fortalecimento muscular; no terceiro grupo, mais uma vez a orientação nutricional foi a mesma, porém a atividade física foi mista, um pouco aeróbia e um pouco para fortalecimento muscular. Importante lembrar que os educadores físicos que participaram do estudo tomaram todos os cuidados para que tempo e intensidade da atividade física fossem similares entre os três grupos.

melhor exercicio fisico para idosos

Durante todo o período do estudo, os pacientes foram avaliados para vários parâmetros. Os resultados mais importante foram:

  1. a perda de peso foi igual nos 3 grupos;
  2. entretanto, no grupo com atividade física aeróbia, houve perda de gordura e maior perda de massa magra (ou seja, de músculo);
  3. além disso, o grupo com atividade física aeróbia também apresentou um pouco de perda de massa óssea; a capacitação física, foi melhor nos grupos que fizeram atividade aeróbia e mista;
  4. o ganho de força muscular foi melhor nos grupos que fizeram atividade para fortalecimento muscular e atividade mista.

Assim, os pesquisadores concluíram que, considerando todos os benefícios e todos os eventuais problemas, pacientes obesos idosos, quando autorizados pelos médicos, devem dar preferência à atividade física mista, ou seja, metade do tempo em aeróbia e metade do tempo em musculação.

 

Principal referência para esta postagem: Villareal. New England Journal of Medicine (2017)376:1943.

Texto publicado originalmente no blog http://cienciasaudeliciovelloso.blogspot.com.br

 

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SOBRE O AUTOR:

 

Licio A. Velloso é Professor de Medicina na UNICAMP. Atua nas áreas de obesidade, doenças metabólicas, inflamação e resposta do sistema imune. Autor de mais de 200 artigos científicos. Membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador do OCRC.

Neste artigo, o professor Licio Velloso, da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP e pesquisador do OCRC, discute por que a obesidade é considerada a 'doença do século 21'.

epidemia de obesidade no mundo

Jornais, revistas, programas na televisão; nos mais diversos veículos de difusão de informação e conhecimento, o tema OBESIDADE é uma presença constante. O termo OBESIDADE gera 8,1 milhões de hits no Google (maio de 2017). Além disso, ao longo da história da medicina, já foram publicados mais de 260 mil artigos científicos a seu respeito.

Por que as pessoas se interessam tanto por este tema? A principal razão é o rápido aumento do número de pessoas obesas no mundo. Somos hoje 7,5 bilhões de pessoas habitando a terra, das quais, 600 milhões são obesas. Nos últimos 50 anos, enquanto a população da terra dobrou, o número de pessoas obesas aumentou 30 vezes. Uma verdadeira explosão na prevalência mundial de obesidade. Praticamente todo mundo tem algum parente ou amigo obeso.

Infelizmente apesar de inúmeras campanhas e grande disseminação de informações a respeito da obesidade, as coisas não estão melhorando. A Organização Mundial de Saúde prevê que o número de pessoas obesas deverá dobrar dentro dos próximos 20 anos. Ou seja, obesidade é a doença do século 21.

Se tornar obeso não é apenas um problema de estética, um desvio do padrão de beleza adotado pela sociedade. Não! Se tornar obeso significa aumentar consideravelmente a chance de adquirir uma série de outras doenças. Significa aumentar a chance de ter uma qualidade de vida insatisfatória. Significa aumentar a chance de morrer mais cedo do que se fosse magro.

A Organização Mundial de Saúde prevê que o número de pessoas obesas deverá dobrar dentro dos próximos 20 anos. Ou seja, obesidade é a doença do século 21.

As doenças que mais se associam à obesidade são:

  • diabetes (aumento de glicose/açúcar no sangue),
  • hipertensão (aumento da pressão arterial; ou seja, da pressão que o sangue tem dentro dos vasos sanguíneos) e
  • dislipidemia (aumento de colesterol e/ou triglicérides no sangue).

 

Por causa destas doenças, as pessoas podem sofrer ou morrer mais cedo devido a:

  • infarto do miocárdio (obstrução dos vasos sanguíneos que irrigam o coração),
  • acidente vascular cerebral (chamado popularmente de derrame, que se deve a obstrução de vasos sanguíneos que irrigam o cérebro),
  • insuficiência renal ou outros problemas da circulação do sangue.

 

A obesidade também está associada a alguns tipos de câncer, como o câncer do fígado e do intestino grosso. Assim, ao desenvolver obesidade, uma pessoa passa a conviver com um grande risco que afeta de forma bastante abrangente a sua saúde.

Obesidade é o resultado da combinação de dois fatores: o aumento da quantidade de calorias que se adquire com a alimentação, e a diminuição da quantidade de calorias que se gasta com atividade física. Assim, de forma simplificada podemos considerar que uma pessoa pode se tornar obesa se comer muito e se exercitar pouco. Infelizmente, um número grande de pessoas no mundo come muito e se exercita pouco. Muitas vezes a culpa para este comportamento não é da pessoa, mas da forma como a sociedade evoluiu nos últimos anos. Por causa da mudança do tipo de trabalho e de mudanças na forma como se preparam os alimentos, a sociedade moderna tende a adotar costumes que favorecem o desenvolvimento da obesidade. Trabalhar em escritórios e comer fast-food se tornou um símbolo do desenvolvimento econômico e social, um símbolo do ser humano moderno. Este é exatamente um dos estilos de vida que mais favorece o desenvolvimento da obesidade.

Trabalhar em escritórios e comer fast-food se tornou um símbolo do desenvolvimento econômico e social, um símbolo do ser humano moderno.

A melhor forma de combater a obesidade é evitando que ela se desenvolva. Para tal, desde cedo na vida, deve se adotar uma alimentação saudável e praticar um pouco de atividade física. Para aqueles que já são obesos existe uma série de tratamentos que vão desde abordagens comportamentais, ou seja, tratamentos que tem por objetivo modificar os hábitos alimentares e estimular a prática de exercícios físicos, até tratamentos com medicamentos e mesmo cirurgias. Infelizmente, muitos conceitos e recomendações equivocadas a respeito da obesidade são publicadas com frequência em revistas, sites e blogs. Aqui no Blog Ciência & Saúde obesidade e as doenças que a acompanham serão temas frequentes. Levaremos aos nossos leitores conceitos atuais e cientificamente corretos a respeito de vários aspectos destas condições. Este é o texto inaugural do Blog Ciência & Saúde, seja muito bem vinda(o).

 

Texto publicado originalmente no blog http://cienciasaudeliciovelloso.blogspot.com.br

 

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SOBRE O AUTOR:

 

Licio A. Velloso é Professor de Medicina na UNICAMP. Atua nas áreas de obesidade, doenças metabólicas, inflamação e resposta do sistema imune. Autor de mais de 200 artigos científicos. Membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador do OCRC.

29 de Setembro é o Dia Mundial do Coração. Saiba como cuidar melhor dele prevenindo-se contra um de seus maiores vilões: a hipertensão.

dia-mundial-do-coracao
por  Vívian Franceschini dos Santos*

 

HIPERTENSÃO ARTERIAL: DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA

Pressão arterial (PA) é a força exercida pelo sangue sobre os vasos sanguíneos que saem do coração e conduzem oxigênio e nutrientes para todo o nosso corpo.

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) ou pressão alta, como ela é popularmente conhecida, é causada pelo aumento dos níveis normais da PA. Em mais de 90% das vezes, o aparecimento desta doença não tem nenhuma causa, sendo chamada de primária, ou essencial. Em poucos casos ela surge como reflexo de alterações dos rins, aorta ou tumores – e nestes casos o tratamento deve ser sobre a causa. A HAS primária é um importante problema de saúde pública, afetando mais de 30% dos brasileiros adultos.

Inicialmente, ela pode ser uma inimiga silenciosa, o que torna o avanço da doença bastante perigoso

Como ela não possui causa aparente, seu aparecimento pode se dar em qualquer momento da vida. Como a hereditariedade é um grande fator de risco, grande atenção aos sintomas deve ser tomada pelos filhos ou netos de hipertensos. Inicialmente, ela pode ser uma inimiga silenciosa, sem sinais ou sintomas, mas também pode, mais raramente, apresentar sintomas como dores de cabeça, tontura e falta de ar.

Por ser silenciosa, a não identificação e o avanço da doença são bastante perigosos, levando ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, fato que contribui com a mortalidade de milhões de pessoas em todo o mundo. Por exemplo, o infarto do miocárdio (que acomete com grande frequência os hipertensos) foi a principal causa das mortes no Brasil no ano de 2014, segundo dados do DATASUS.

 

 

COMO PREVENIR ESSA DOENÇA TÃO IMPORTANTE

A HAS é um fator de risco modificável – em outras palavras, existem diversas medidas que podem ser tomadas para reduzir ou retardar seu avanço. A fim de reduzir eventos cardiovasculares fatais (morte) e não fatais (doenças), diversos estudos têm demonstrado que as modificações no estilo de vida são eficazes em prevenir ou retardar o início da HAS e devem ser estimuladas tanto para a população geral – incluindo crianças e jovens – quanto para os grupos com maior risco de desenvolver hipertensão, como os idosos com mais de 65 anos, indivíduos de raça negra ou que tenham histórico familiar da doença.

A mudança no estilo de vida envolve uma alimentação saudável e balanceada, ou seja, o consumo de frutas, legumes, vegetais, fibras e grãos, além da redução da ingestão de álcool, sal e alimentos gordurosos. Outro fator importante é a prática regular de exercícios físicos, que contribui para a redução do peso corporal e consequentemente da pressão. Dentre as medidas para a prevenção da HAS, estão ainda hábitos saudáveis como o abandono do tabagismo e o controle do estresse por técnicas de relaxamento.

 

causas-e-prevencao-da-hipertensao

 

IMPORTÂNCIA DO TRATAMENTO ADEQUADO

A mudança no estilo de vida é muito importante para o equilíbrio dos níveis de pressão. Mas, muitas vezes, ela por si só pode não ser suficiente para o tratamento e o controle da pressão arterial. Sendo assim, há medicamentos anti-hipertensivos que estão disponíveis no mercado e no Sistema Único de Saúde (SUS). Para tanto, é necessário acompanhamento de um médico especialista e a realização de exames periódicos.

medica-e-paciente-cuidando-do-coracaoNesse aspecto é fundamental a aderência farmacológica, que consiste em seguir corretamente as instruções dadas pela equipe de saúde envolvida no tratamento. Estas instruções estão relacionadas tanto à mudança no estilo de vida quanto à maneira de tomar as medicações. A aderência ao tratamento deve ser estimulada nos pacientes com pressão alta, pois como é uma patologia silenciosa, que raramente gera sintomas, os pacientes geralmente abandonam o tratamento por não sentirem benefício aparente. No entanto, essa prática é extremamente perigosa. Essa falta de aderência é tão comum que um estudo recente realizado por nossa equipe demonstrou que cerca de 57% dos pacientes que tomam mais de 3 remédios não são aderentes, o que prejudica o controle da pressão e aumenta o risco cardiovascular.

Ainda que, inicialmente, a doença não cause sintomas desagradáveis ou não acarrete consequências visíveis no curto prazo, o paciente deve considerar que o objetivo da equipe de saúde com o tratamento adequado é evitar futuros problemas mais sérios.

Portanto, vencer a hipertensão arterial, essa vilã do coração saudável, significa: preveni-la sempre, realizar mudança no estilo de vida e tratamento adequado com acompanhamento médico e boa aderência a esse tratamento.

 

Referências:

 

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SOBRE A AUTORA:

Vívian Franceschini dos Santos – Bióloga (UNIP), mestranda em Farmacologia (FCM/UNICAMP) e aluna do Laboratório de Farmacologia Cardiovascular, vinculado ao Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, atuando em pesquisa clínica e assistência ambulatorial de hipertensos, estudando hipertensão resistente, obesidade e diabetes.

 

Prebióticos e probióticos: esses dois nomes estranhos podem fazer muito pelo correto funcionamento do seu organismo.

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por Albina F. S. R. Garcia*

 

A Organização Mundial de Saúde estima que mais de 40% da população mundial está acima do peso. Sobrepeso e obesidade favorecem o desenvolvimento de doenças como a hipertensão e o diabetes tipo 2.

Nos últimos anos, surgiram diversas pesquisas relacionando as alterações entre a composição da microbiota intestinal e o aumento no risco de desenvolver obesidade. A microbiota é um conjunto de microorganismos, especialmente bactérias, que vivem em várias regiões do corpo sem provocar doenças. Segundo vários pesquisadores, a presença de alguns microorganismos específicos na microbiota intestinal poderia favorecer o desenvolvimento de diversas doenças, entre elas a obesidade. Quando um indivíduo apresenta mais bactérias do gênero Firmicutis em sua microbiota intestinal, há maior probabilidade de o mesmo se tornar obeso, enquanto indivíduos com números aumentados de bactérias do gênero Bacteroidetes tendem a ser mais magros.

Da mesma forma, diversos estudos mostram o papel benéfico de alimentos (chamados funcionais) na manutenção do funcionamento do organismo, prevenindo o aparecimento de diversas doenças.

E o que isso tem a ver com os prebióticos e probióticos?

 

 

O QUE SÃO OS PREBIÓTICOS E OS PROBIÓTICOS?

Alimentos prebióticos são grupos de alimentos (particularmente fibras alimentares) que resistem à digestão no corpo (portanto não são digeríveis) e que, ao chegar ao intestino, promovem uma série de efeitos benéficos ao organismo (Quadro 1). Probióticos, por sua vez, são microorganismos, especialmente bactérias, que, quando ingeridas (adicionadas a diversos alimentos), auxiliam na manutenção da saúde do indivíduo como um todo, principalmente por favorecerem a instalação de uma microbiota mais saudável no intestino (Quadro 2). Os alimentos probióticos mais conhecidos são os leites fermentados.

tabela-prebioticos-probioticos
Clique na tabela para abrir a versão ampliada.

 

 

POR QUE CONSUMIR MAIS PROBIÓTICOS?

Recentemente, numa pesquisa inédita, pesquisadores do Texas (USA) mostraram que Lactobacilus reuteri, uma bactéria presente na microbiota intestinal, pode auxiliar no combate a distúrbios de comportamento social, como alguns decorrentes do autismo.

De acordo com a pesquisa, animais filhos de mães obesas durante a gestação podem apresentar anomalias no seu comportamento social decorrentes de alterações na população de bactérias específicas da microbiota intestinal desses animais. Os pesquisadores fizeram diversos experimentos e puderam observar que várias bactérias estão alteradas nesses filhotes e associaram essas alterações aos distúrbios de comportamento social observado apenas na ninhada de mães obesas. Os filhotes de mães obesas interagiam menos com outros animais (conhecidos ou não).

Os cientistas do grupo mostraram que o L. reuteri estimula a liberação de oxitocina no sistema nervoso central e sua interação e ativação de circuitos dopaminérgicos, que regulam o comportamento social dos indivíduos. Ao reintroduzirem o L. reuteri na microbiota intestinal desses animais, o comportamento social natural foi restaurado nesses filhotes.

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Clique na tabela para abrir a versão ampliada.

Assim, além de alertar sobre a importância do combate à obesidade materna, o estudo, publicado na revista Cell, traz boas notícias: no futuro, o consumo de probióticos pode prevenir e restaurar distúrbios de comportamentos sociais relacionados a doenças como o autismo, por exemplo. Entretanto, é fundamental perceber que uma boa saúde depende da ingestão de alimentos funcionais, mas também de vários fatores que, associados, melhoram a saúde do indivíduo como um todo.

 

Referências:

  • Barengolts E. Gut microbiota, prebiotics, probiotics, and synbiotics in management of obesity and prediabetes: review of randomized controlled trials. Endocr Pract. 2016.
  • Buffington SADi Prisco GVAuchtung TAAjami NJPetrosino JFCosta-Mattioli M. Microbial Reconstitution Reverses Maternal Diet-Induced Social and Synaptic Deficits in Offspring. Cell, 2016; 165(7):1762-75. doi: 10.1016/j.cell.2016.06.001.
  • Grimshaw KLogan KO’Donovan SKiely MPatient Kvan Bilsen JBeyer KCampbell DEGarcia-Larsen VGrabenhenrich LLack GMills CWal JMRoberts G. Modifying the infant’s diet to prevent food allergy. Arch Dis Child. 2016 pii: archdischild-2015-309770
  • Saad, SM. Probióticos e prebióticos: o estado da arte. Braz J. of Pharmaceutical Sciences vol. 42, n. 1, jan./mar., 2006
  • Souza FS, Cocco RR, Sarni ROS, Mallozi MC, Solé D. Prebióticos, probióticos e simbióticos na prevenção e tratamento das doenças alérgicas. Rev Paul Pediatr 2010; 28(1):86-97.
  • Thamer KG, Penna ALB. Caracterização de bebidas lácteas funcionais fermentadas Por probióticos e acrescidas de prebiótico. Ciênc. Tecnol. Aliment., 2006; 26(3): 589-595.
  • Vandenplas Y, Veereman-Wauters G, De Greef E, Peeters S, Casteels A, Mahler T, Devreker T, Hauser B. Probiotics and prebiotics in prevention and treatment of diseases in infants and children. Jornal de Pediatria, 2011.

 

colunistas-albina-garcia
SOBRE A AUTORA:

Albina de Fátima Silva Ramalho Garcia – Farmacêutica, especialista em Cosmetologia e Produção de medicamentos magistrais, mestre em Biociências – nutrição e metabolismo celular (UFMT), doutora em Ciências Médicas – Clínica Médica (UNICAMP), pós doutoranda em Fisiopatologia médica (UNICAMP). Vinculada ao Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, atua em obesidade, particularmente com moléculas que alterem a permeabilidade da barreira hemato-encefálica.

 

Condições adversas durante a gestação podem influenciar a saúde futura dos bebês? Pesquisas realizadas com os ‘filhos da fome’ trazem algumas respostas.

os filhos da fome
por Alexandre M. Assis*

 

A 2° Guerra Mundial já estava chegando ao fim quando, em novembro de 1944, as tropas alemãs de Adolf Hitler impuseram um extenso bloqueio ao leste da Holanda, provocando um embargo alimentar que afetou milhares de holandeses. Em decorrência da escassez de alimentos, aproximadamente 20.000 holandeses morreram até o final do bloqueio, em meados de maio de 1945.

Apesar de trágico, este período gerou um dos legados científicos mais fascinantes da história: foi possível acompanhar características antropométricas e metabólicas das crianças que foram expostas a um período de adversidades ambientais enquanto ainda eram fetos; pois suas mães sofreram restrição alimentar severa durante a gravidez, consumindo em média 400 a 800 calorias por dia.

Uma gestante deve consumir em média 2000-3000 caloria por dia, dependendo do seu peso e altura

Alguns anos após o término da Guerra, pesquisadores passaram a acompanhar os filhos/as filhas destas mulheres para tentar responder a seguinte pergunta: a exposição a um ambiente gestacional adverso poderia resultar em distúrbios importantes da saúde durante a vida adulta?

Estes estudos identificaram altas taxas de obesidade e doenças cardiovasculares quando a prole das mães expostas à fome chegou à vida adulta. As alterações foram atribuídas à restrição alimentar durante a vida intrauterina, que resultou em alterações epigenéticas destas pessoas

São chamadas de epigenéticas as modificações da expressão de genes que são induzidos por fatores ambientais, neste caso a fome enfrentada pelas mães.

Surpreendentemente, os estudos revelaram que as alterações genéticas foram induzidas durante a vida intrauterina, porém a obesidade e as doenças cardiovasculares surgiram apenas muitos anos mais tarde, durante a idade adulta. Tal fato ocorreu porque, somente após o final da guerra, com a melhora da economia na Europa, houve exposição a quantidades maiores de alimentos. Os pesquisadores descobriram que as modificações genéticas que ocorreram durante o período fetal são formas de proteção frente à restrição alimentar, tornando o indivíduo mais apto a conservar calorias no seu corpo. Mais tarde, mesmo com a exposição a quantidades adequadas de alimento, os genes continuam trabalhando como se houvesse carência alimentar. Dessa forma, eles favorecem o acúmulo contínuo de calorias no corpo, promovendo o desenvolvimento de obesidade e, mais tarde, de doenças que acompanham a obesidade, como diabetes, aterosclerose e hipertensão arterial.

soldados ingleses alimentam crianças holandesas 2a guerra
Soldados ingleses alimentam crianças holandesas após a libertação do país do jugo nazista: elas foram as vítimas mais afetadas pelo bloqueio de alimentos.

A partir deste estudo, outras centenas de trabalhos acadêmicos obtiveram resultados semelhantes e, hoje, a epigenética é bem aceita como um dos principais mecanismos envolvidos no desenvolvimento da obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

alimentação na gravidez
A alimentação adequada durante a gravidez é fundamental para proteger a saúde futura dos filhos.

Podemos então concluir que, se nossa mãe passou por algum tipo de privação alimentar durante a gestação, ficaremos obesos e diabéticos?

Não é bem assim. Ainda não conseguimos predizer com exatidão essa correlação em humanos, mas isto reforça, mais do que nunca, a importância da alimentação adequada durante a gestação e também da amamentação, mesmo que no pós-parto, por ser um período de extrema importância para o desenvolvimento do bebê e com diversas repercussões positivas na saúde na vida adulta.

Por ora, se você conhece alguma amiga que esteja grávida, não deixe de recomendar este texto e, caso tenha dúvidas, mande-nos um e-mail!

 

REFERÊNCIAS:

  • Schulz, Laura C. 2010. “The Dutch Hunger Winter and the Developmental Origins of Health and Disease.” PNAS: Proceedings of the National Academy of Sciences, 107(39): 16757–58.
  • Stein, A. D., H. S. Kahn, A. Rundle, P. A. Zybert, K. van der Pal–de Bruin, and L. H. Lumey. 2006. “Anthropometric Measures in Middle Age after Exposure to Famine during Gestation: Evidence from the Dutch Famine.” American Journal of Clinical Nutrition, 85(3): 869–76.
  • Stein, A. D., P. A. Zybert, K. van der Pal–de Bruin, and L. H. Lumey. 2006. “Exposure to Famine during Gestation, Size at Birth, and Blood Pressure at age 59 y: Evidence from the Dutch Famine.” European Journal of Epidemiology, 21(2): 759–65.

 

Alexandre Moura Assis OCRC Unicamp
SOBRE O AUTOR:

Alexandre Moura Assis –  Nutricionista (UNIFESP), Mestre em Ciências da Nutrição e Metabolismo (UNICAMP), Doutorando em Fisiopatologia Médica (UNICAMP). Vinculado ao Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, atua com obesidade, resistência à insulina e DM2, metainflamação e nutrigenômica.

 

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