É possível prever quantas pessoas terão diabetes tipo 2 em seu bairro?

Estudo inglês descobre correlação entre termos utilizados em mecanismos de busca e o desenvolvimento do diabetes em uma dada região.

 

[dropcap type=”1″]Q[/dropcap]uando pensamos em ‘mecanismos de buscas na internet’, logo vêm à cabeça a ideia de websites que trazem as respostas às questões que mais nos interessam. Mecanismos como o Google, por exemplo, já fazem parte do cotidiano de centenas de milhões de usuários, que realizam mais de 3.5 bilhões de buscas todos os dias [1]. Em meio a tantos dados e a um número exorbitante de questões sendo perguntadas diariamente, é possível tirar algumas conclusões surpreendentes sobre o comportamento humano. Entre elas, como está a nossa relação com o diabetes tipo 2.

De acordo com uma pesquisa [2] da Universidade de Warwick, na Inglaterra, avaliar o número de buscas por determinadas palavras-chave em sites como o Google ou em redes sociais pode fornecer importantes pistas sobre a probabilidade de uma doença se propagar em uma cidade – ou até mesmo em um bairro. A conclusão pode auxiliar no desenvolvimento de políticas públicas para melhor controle do diabetes tipo 2 e em novas estratégias para prevenir a doença.

 

GOOGLE TRENDS E DADOS DE SAÚDE – UMA FORTE CORRELAÇÃO

O estudo em questão foi publicado em julho do ano passado na revista científica Scientific Reports, do respeitado grupo editorial Nature.

Nele, os pesquisadores compararam dois fatores: termos e expressões utilizadas pelos moradores de Londres, na Inglaterra, em suas buscas no Google e a incidência de diabetes tipo 2 na cidade ao longo do tempo.

Foram utilizados, no estudo, dados completos sobre a saúde da população, como gênero, idade, peso, índice de massa corporal (IMC) e histórico familiar de diabetes. Tais informações foram comparadas, depois, aos dados do Google Trends (saiba mais sobre esse sistema logo abaixo!) de habitantes da região central de Londres, com especial atenção para taxas de flutuação de palavras-chave relacionadas aos fatores de risco para o diabetes. Alguns exemplos de termos analisados foram…

  • como perder peso”,
  • tratamento de pressão alta”,
  • como parar de fumar”,
  • assim como o próprio termo “diabetes” e variações.

Os resultados mostraram uma correlação intensa, ao longo dos anos, entre o aumento de buscas por termos relacionados ao diabetes e a incidência da doença na população.

“O comportamento de se autodiagnosticar por meio de buscas online pode ser utilizado como uma ferramenta para o monitoramento, em tempo real, de questões relacionadas à saúde, com maior potencial nos casos de doenças crônicas e não-transmissíveis”, diz Nataliya Tkachenko, primeira autora do artigo.

CONHECENDO O GOOGLE TRENDS

O Google Trends é uma ferramenta gratuita e de uso livre do Google que permite analisar a evolução de uma palavra chave ao longo do tempo.

É possível, também, filtrar os dados de acordo com uma determinada região geográfica. Por exemplo, seguindo este link, é possível analisar o volume relativo de buscas pelo termo “diabetes tipo 2” no estado de São Paulo nos últimos cinco anos. A cidade de Campinas, neste caso, é a 4ª no estado que mais buscou o termo no Google durante o período.

Prática similar foi adotada no estudo discutido neste texto. A diferença foi que os pesquisadores filtraram ainda mais os resultados, chegando ao nível de bairros de Londres, para entender o que atiçava a curiosidade dos moradores em relação à sua saúde.

“Ao contrário de doenças que se alastram rapidamente (gripes, por exemplo), as doenças crônicas e não transmissíveis dependem fortemente do estilo de vida das pessoas e da comunidade onde elas vivem, fatores que normalmente não são levados em conta nos modelos epidemiológicos atuais”, explica a cientista. “Comportamentos online podem ajudar a preencher a lacuna que hoje existe entre o ‘mundo real’ e as ferramentas de monitoramento”.

 

CONSULTA COM O ‘DR GOOGLE’ – UMA MANIA GLOBAL 

Os pesquisadores britânicos ressaltam que a população de lá está utilizando cada vez mais a internet para se autodiagnosticar. Em 2015, segundo o Google do Reino Unido, 21.8% dos habitantes do país preferiram se autodiagnosticar com ajuda dos mecanismos de busca online do que ir a um médico. Essas ferramentas, portanto, constituem um grande – e crescente – banco de dados que pode ser explorado por profissionais de saúde e pelos responsáveis por criar políticas públicas.

“Dados de resultados de mecanismos de busca e de redes sociais não são usados por profissionais da área médica, mas podem revolucionar a forma pela qual o diabetes tipo 2 (e outras sérias doenças crônicas) é monitorado em áreas geográficas específicas”, escrevem os pesquisadores. “Ser capaz de acompanhar uma doença conforme ela surge e identificar riscos que fazem ela se espalhar podem ajudar a informar profissionais da saúde sobre a melhor forma de lidar com a situação”.

O BRASILEIRO E O AUTODIAGNÓSTICO ONLINE

Os dados de ‘autodiagnostico’ via internet seguem tendência bastante similar também aqui no Brasil. Em 2011, uma pesquisa da Ipso Mori [3] revelou que 90% dos brasileiros com acesso à internet faziam buscas sobre sintomas, tratamentos e doenças online.

Nos últimos dois anos, entidades médicas alertaram para o fato de que, devido à crise econômica, um número cada vez maior de pessoas preferia se ‘autodiagnosticar’ via internet do que procurar um médico, o que pode trazer graves consequências à saúde. De acordo com o Google Brasil, buscas relacionadas à saúde representam 5% de todo o volume mensal no país.

 

SOBRE O DIABETES 

O diabetes se desenvolve quando o organismo não produz insulina ou não consegue utilizar adequadamente a insulina que produz. A insulina é o hormônio que regula a quantidade de glicose no sangue; sem ela, há o risco de os níveis de açúcar no sangue ficarem muito elevados (fenômeno chamado de ‘hiperglicemia’), o que pode causar danos em diversos órgãos, vasos sanguíneos e nervos.

O diabetes tipo 2 é o tipo mais comum da doença, chegando a representar até 90% dos casos. As principais causas da doença são a alimentação inadequada – como, por exemplo, uma dieta rica em açúcares e gorduras – e a falta de exercícios físicos.

Estima-se que, em 2016, mais de 422 milhões de pessoas no mundo estavam com diabetes [4] – número que era cerca de 108 milhões em 1980 e 382 milhões em 2013. Isso corresponde a aproximadamente 5,5% da população mundial, o dobro do que era em 1980. Apenas no Brasil, são mais de 14 milhões de pessoas que convivem com o diabetes, cerca de 10% da população do país.

 

Veja aqui no nosso portal de informações como prevenir ou reverter esse quadro. Sempre é hora de repensar seus hábitos e investir em sua saúde!

 

[quote_box_left]Revisado por: Lucas Rodolfo de Oliveira Rosa, mestrando do OCRC.[/quote_box_left]

 

 

 

PARA SABER MAIS

  1. Google Zeitgeist 2012
  2. Nataliya Tkachenko, Sarunkorn Chotvijit, Neha Gupta, Emma Bradley, Charlotte Gilks, Weisi Guo, Henry Crosby, Eliot Shore, Malkiat Thiarai, Rob Procter & Stephen Jarvis. Google Trends can improve surveillance of Type 2 diabetes. Scientific Reports 7, Article number: 4993 (2017). doi:1038/s41598-017-05091-9
  3. Ver resumo da pesquisa Ipso Mori sobre hábitos online dos brasileiros em Correio Braziliense
  4. Global Report on Diabetes – World Health Organization

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