Os filhos da fome (que ficaram obesos)

Condições adversas durante a gestação podem influenciar a saúde futura dos bebês? Pesquisas realizadas com os ‘filhos da fome’ trazem algumas respostas.

os filhos da fome
por Alexandre M. Assis*

 

[dropcap type=”1″]A[/dropcap] 2° Guerra Mundial já estava chegando ao fim quando, em novembro de 1944, as tropas alemãs de Adolf Hitler impuseram um extenso bloqueio ao leste da Holanda, provocando um embargo alimentar que afetou milhares de holandeses. Em decorrência da escassez de alimentos, aproximadamente 20.000 holandeses morreram até o final do bloqueio, em meados de maio de 1945.

Apesar de trágico, este período gerou um dos legados científicos mais fascinantes da história: foi possível acompanhar características antropométricas e metabólicas das crianças que foram expostas a um período de adversidades ambientais enquanto ainda eram fetos; pois suas mães sofreram restrição alimentar severa durante a gravidez, consumindo em média 400 a 800 calorias por dia.

[quote_box_center]Uma gestante deve consumir em média 2000-3000 caloria por dia, dependendo do seu peso e altura[/quote_box_center]

Alguns anos após o término da Guerra, pesquisadores passaram a acompanhar os filhos/as filhas destas mulheres para tentar responder a seguinte pergunta: a exposição a um ambiente gestacional adverso poderia resultar em distúrbios importantes da saúde durante a vida adulta?

Estes estudos identificaram altas taxas de obesidade e doenças cardiovasculares quando a prole das mães expostas à fome chegou à vida adulta. As alterações foram atribuídas à restrição alimentar durante a vida intrauterina, que resultou em alterações epigenéticas destas pessoas

[quote_box_center]São chamadas de epigenéticas as modificações da expressão de genes que são induzidos por fatores ambientais, neste caso a fome enfrentada pelas mães.[/quote_box_center]

Surpreendentemente, os estudos revelaram que as alterações genéticas foram induzidas durante a vida intrauterina, porém a obesidade e as doenças cardiovasculares surgiram apenas muitos anos mais tarde, durante a idade adulta. Tal fato ocorreu porque, somente após o final da guerra, com a melhora da economia na Europa, houve exposição a quantidades maiores de alimentos. Os pesquisadores descobriram que as modificações genéticas que ocorreram durante o período fetal são formas de proteção frente à restrição alimentar, tornando o indivíduo mais apto a conservar calorias no seu corpo. Mais tarde, mesmo com a exposição a quantidades adequadas de alimento, os genes continuam trabalhando como se houvesse carência alimentar. Dessa forma, eles favorecem o acúmulo contínuo de calorias no corpo, promovendo o desenvolvimento de obesidade e, mais tarde, de doenças que acompanham a obesidade, como diabetes, aterosclerose e hipertensão arterial.

soldados ingleses alimentam crianças holandesas 2a guerra
Soldados ingleses alimentam crianças holandesas após a libertação do país do jugo nazista: elas foram as vítimas mais afetadas pelo bloqueio de alimentos.

A partir deste estudo, outras centenas de trabalhos acadêmicos obtiveram resultados semelhantes e, hoje, a epigenética é bem aceita como um dos principais mecanismos envolvidos no desenvolvimento da obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

alimentação na gravidez
A alimentação adequada durante a gravidez é fundamental para proteger a saúde futura dos filhos.

Podemos então concluir que, se nossa mãe passou por algum tipo de privação alimentar durante a gestação, ficaremos obesos e diabéticos?

Não é bem assim. Ainda não conseguimos predizer com exatidão essa correlação em humanos, mas isto reforça, mais do que nunca, a importância da alimentação adequada durante a gestação e também da amamentação, mesmo que no pós-parto, por ser um período de extrema importância para o desenvolvimento do bebê e com diversas repercussões positivas na saúde na vida adulta.

Por ora, se você conhece alguma amiga que esteja grávida, não deixe de recomendar este texto e, caso tenha dúvidas, mande-nos um e-mail!

 

REFERÊNCIAS:

  • Schulz, Laura C. 2010. “The Dutch Hunger Winter and the Developmental Origins of Health and Disease.” PNAS: Proceedings of the National Academy of Sciences, 107(39): 16757–58.
  • Stein, A. D., H. S. Kahn, A. Rundle, P. A. Zybert, K. van der Pal–de Bruin, and L. H. Lumey. 2006. “Anthropometric Measures in Middle Age after Exposure to Famine during Gestation: Evidence from the Dutch Famine.” American Journal of Clinical Nutrition, 85(3): 869–76.
  • Stein, A. D., P. A. Zybert, K. van der Pal–de Bruin, and L. H. Lumey. 2006. “Exposure to Famine during Gestation, Size at Birth, and Blood Pressure at age 59 y: Evidence from the Dutch Famine.” European Journal of Epidemiology, 21(2): 759–65.

 

Alexandre Moura Assis OCRC Unicamp
SOBRE O AUTOR:

Alexandre Moura Assis –  Nutricionista (UNIFESP), Mestre em Ciências da Nutrição e Metabolismo (UNICAMP), Doutorando em Fisiopatologia Médica (UNICAMP). Vinculado ao Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, atua com obesidade, resistência à insulina e DM2, metainflamação e nutrigenômica.

 

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