A influência do estresse emocional e ansiedade nas escolhas alimentares

O estresse e a ansiedade podem influenciar no maior apetite e na busca por alimentos açucarados e gordurosos, ou seja, palatáveis. Em geral, essas mudanças no comportamento estão associadas ao ganho excessivo de peso, que poderá comprometer à saúde e qualidade de vida.

 

O que eu devo saber sobre o estresse emocional e ansiedade?

Antes de entendermos a relação do estresse emocional e da ansiedade nas escolhas alimentares, é importante definirmos alguns conceitos. Dentre esses, precisamos compreender que a emoção é um estado biológico em resposta à alguma situação (ex. estar feliz ao encontrar alguém que goste). Essa resposta gera diversos estímulos no cérebro e demais órgãos do corpo e resultam em mudanças no comportamento, incluindo o alimentar.  Por outro lado, em algumas condições especificas, como a ansiedade, tornam o indivíduo mais sensíveis aos sentimentos de medo, tristeza, tensão e estresse. Nesse sentido, diversos fatores podem levar a quadros de estresse ou ansiedade, como o contexto social, relações interpessoais, questões financeiras e sentimentos individuais.

O estresse emocional e a ansiedade são considerados um problema da sociedade moderna, atingindo grande parte da população, estão associados à praticas, como: uso de cigarro e álcool.   Estudos científicos tem mostrado que essas condições podem influenciar negativamente o ganho de peso e causar riscos para a integridade física e mental. Segundo a Associação Americana de Psicologia (APA), as crianças com sobrepeso ou obesidade são mais sensíveis ao aumento no consumo de alimentos e ganho de peso causados pelo estresse. Além disso, quadros recorrentes de ansiedade podem levar alterações de humor, distúrbios de sono, maior ingestão de alimentos calóricos e de baixa qualidade nutricional.

Pesquisadores tem investigado como o estresse emocional e a ansiedade podem afetar
nossas escolhas alimentares.

A ciência tem comprovado que as regiões do cérebro envolvidas na administração das emoções, da ansiedade e da ingestão de alimentos (fome e saciedade) são compartilhadas, facilitando sua interação. Nessa perspectiva, pesquisadores evidenciaram a existência de um sistema de recompensa no cérebro que extremamente sensível às substâncias como açúcar refinado e gordura, ingredientes que são encontrados em grande quantidade nos alimentos industrializados (ex. chocolate ao leite, doces e balas). Elevadas quantidades dessas substâncias geram sensação de prazer, felicidade e bem-estar pois estimula a produção de alguns neurotransmissores, como dopamina e serotonina. Pesquisadores tem apresentado evidências de que esses alimentos podendo gerar vícios alimentares devido sua palatabilidade (agradável ao paladar), pois agem de maneira similar à alguma droga. Essa característica parece ter relação com a maior procura desse tipo de alimento por indivíduos que apresentam quadros de ansiedade, estresse emocional ou mesmo depressão.

Outro ponto importante, é que esse sistema de recompensa também se comunica com outra região do cérebro, conhecida como hipotálamo, que contribui para o controle do peso corporal através da fome e saciedade. Dessa forma, sentimentos negativos (ex. raiva, tristeza, agressividade, decepção e outros) podem levar à maior ingestão alimentar pois recebem estímulos do sistema de recompensa aumentando os sinais de fome e ainda são influenciados pelo cortisol, considerado o hormônio do estresse. Esse cenário também é comumente observado em portadores de transtornos mentais que apresentam mudanças de humor ao longo do dia e a comida como escape nesses momentos. Essa condição pode ser chamada de “comer emocional” que relaciona o ato de se alimentar conforme as emoções, buscando a sensação de conforto, alívio ou distração. Entretanto, este ato pode ocasionar elevado consumo de alimentos ricos em calorias, açúcares e gorduras, podendo proporcionar sensação de culpa e raiva, gerando novos sentimentos negativos e não resolvendo o problema inicial.

Além das mudanças na qualidade do que se come, foi observado que o estresse em adultos está associado com baixa ingestão de verduras e legumes e consumo de refeições mais calóricas. É preciso estar alerta, pois episódios recorrentes do comer emocional podem indicar uma evolução para algum transtorno alimentar. Pois é descrito na literatura cientifica que o estresse e a ansiedade podem desencadear a compulsão alimentar, caracterizada como um transtorno que envolve pontuais aumentos na ingestão alimentar durante curtos intervalos de tempo, por vezes seguidos por sentimento de culpa. O desenvolvimento desse transtorno alimentar pode contribuir para o ganho excessivo de peso e o desenvolvimento de outras doenças, como a síndrome metabólica.

Fonte:   Harvard Medical School (https://www.health.harvard.edu/blog/gut-feelings-how-food-affects-your-mood-2018120715548)

Como o cenário da pandemia do novo Coronavírus tem contribuído
para o estresse emocional?

Conforme abordado em outras matérias nesse site, a adesão ao isolamento social em diferentes países levou à uma série de mudanças na rotina pessoal e profissional. Esse confinamento repercutiu também no estado emocional das pessoas, que passaram ter seu convívio social mais restrito, insegurança e medo diante das notícias veiculando o crescente número de novos casos, as incertezas e expectativas sobre o andamento do desenvolvimento da vacina, entre outros aspectos. O Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos revelou que os desafios vividos durante a pandemia são estressantes e podem gerar sensações de solidão e isolamento nas pessoas, aumentando a frequência nos episódios de estresse e ansiedade. O CDC reforçou, ainda, que o estresse e ansiedade decorrentes do isolamento social podem favorecer mudanças no apetite e nas escolhas alimentares, inclusive favorecer hábitos que possam comprometer à saúde mental (ex. aumento no uso de álcool, cigarro e outras substâncias).

Apesar da pandemia favorecer um ambiente estressante, um estudo realizado na Itália durante o lockdown identificou que os italianos apresentaram mudanças positivas no estilo de vida, dentre elas a ingestão adequada de água, o aumento da pratica de atividade física em casa, mas também a ingestão de alimentos saudáveis (ex. frutas, verduras e legumes), inclusive os entrevistados passaram a consumir versões caseiras de alimentos tradicionalmente industrializados. Esses resultados podem servir como um indicativo que parte da população está fazendo as pazes com a cozinha e os alimentos, redescobrindo e aprimorando novas habilidades e não está cedendo ao estresse emocional.

Mas então, quais os benefícios da alimentação nos episódios
de estresse e na ansiedade?

A nutrição pode ser uma importante aliada em meio a episódios de estresse emocional ou ansiedade. Dessa forma, os nutricionistas recomendam a ingestão de alguns alimentos que são fontes de nutrientes que podem atuar no organismo, minimizando os impactos gerados durante esses quadros. Por exemplo, recomenda-se o consumo de alimentos ricos em ômega 3, presentes nos peixes de água profunda, como salmão, sardinha, atum e arenque. Esse nutriente proporciona diversos benefícios à saúde física e mental, sua caráter anti-inflamatório tem papel de destaque, pois a ciência tem mostrado que está associada à redução nos quadros de estresse e ansiedade.

Algumas vitaminas e substâncias bioativas (substâncias naturais que trazem benefícios à saúde) encontradas nos alimentos também são indicadas, pois possuem função antioxidante, que auxiliam no combate aos radiais livres que estão presentes em elevados níveis durante situações de estresse e ansiedade extrema. Alguns antioxidantes interessantes são: os carotenóides (presentes em diversos alimentos, como na cenoura, mamão, tomate, abóbora e couve), vitamina C (frutas cítricas, como a laranja, limão, tangerina e acerola), Vitamina E (semente de girassol, óleos vegetais, amendoim, nozes) e selênio (castanha do pará, ovos, carnes, peixes, semente de girassol e pães), estes compostos são capazes de reduzir os ricos das patologias associadas à ansiedade e ao estresse crônico.

Desta forma, a composição da alimentação é de extrema importância para a saúde cerebral e consequentemente o estado emocional. Alguns estudos tem proposto que uma dieta com padrão do mediterrâneo, sendo rica em peixes, com elevada variedade de alimentos in-natura e minimamente processados, como as frutas, verduras, legumes, nozes, alimentos estes que possuem nutrientes importantes para a proteção contra os prejuízos a saúde gerados pelo estresse e ansiedade, além disso podem aumentar a saciedade pela presença de fibras, proteínas e gorduras insaturadas. Mais informações sobre a relação entre o estado emocional e a alimentação foram tratadas em outras matérias em nosso site.

Fonte: American Heart Association (https://www.heart.org/en/healthy-living/healthy-eating/eat-smart/nutrition-basics/mediterranean-diet)

Como recomendação final, sugerimos um filme muito divertido e que pode ajudar a entender como o estado emocional pode influenciar nossas escolhas e atitudes.

Divertidamente

Ano: 2015

Gênero: Animação/Comédia

Produção: Dinsney Pictures e Pixar Studios

Referências:

BECKER, K. R., et al. Global/local processing style: Explaining the relationship between trait anxiety and binge eating. International Journal of Eating Disorders, v.50, n. 11, p. 1264–1272, Nov., 2017.

DEBEUF, T., et al. Stress and Eating Behavior: A Daily Diary Study in Youngsters. Frontiers in Psychology, v.9, p.1-13, Dec., 2018.

GONZALEZ, M.J.; MIRANDA-MASSARI, J.R. Diet and Stress. Psychiatric Clinics of North America, v.37, n.4, p. 579–589, 2014.

HUESTON, C.M.; CRYAN, J.F.; NOLAN, Y.M. Stress and adolescent hippocampal neurogenesis: diet and exercise as cognitive modulators. Translational Psychiatry, v.7, n.4, p.1-17, 2017.

LITWIN, R., et al. Negative emotions and emotional eating: the mediating role of experiential avoidance. Eating Weight Disorders, v. 22, n. 1, p.97-104, Mar., 2016.

PEREIRA, T. C., et al. Estado emocional e comportamento alimentar de universitárias de uma instituição de ensino particular. Revista e-ciência, v. 7, n. 1, p. 16-20, 2019.

RAZZOLI, M.; BARTOLOMUCCI, A. The dichotomous effect of chronic stress on obesity. Trends Endocrinol & Metabolism, v. 27, n. 7, p.504–515, Jul., 2016.

ZHU, et al. Life Event Stress and Binge Eating Among Adolescents: The Roles of Early Maladaptive Schemas and Impulsivity. Stress and Health, v.32, n.4, p.395-401, Oct., 2015.

SINGH, M. Mood, food, and obesity. Frontiers in pshycology, v.5, n.925, p.1-20. 2014.

RENZO, LD et al. Eating habits and lifestyle changes during COVID-19 lockdown: an Italian survey. J Trans Med, v.18, n.229, p.1-15, 2020.

 

SOBRE OS AUTORES:

Mayara da Nóbrega Baqueiro

Nutricionista, mestranda em Ciências da Nutrição e do Esporte e Metabolismo (FCA/UNICAMP) e aluna do Laboratório de Distúrbios do Metabolismo (LabDiMe), vinculado ao Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades. Atua em pesquisa com modelos experimentais e estuda a influência da obesidade materna induzida por dieta hiperlipidica na hiperfagia de seus descendentes.

 

Wenicios Ferreira Chaves

Graduado em Nutrição (2013-2017) e Mestre em Nutrição pelo PPGN (2018-2020) ambos na Universidade Federal de Pernambuco (2020). Atualmente é doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Nutrição e do Esporte e Metabolismo (PPGCNEM) da Universidade Estadual de Campinas. Desenvolve pesquisa no Laboratório de Distúrbios do Metabolismo (LabDiMe), onde estuda o papel hipotalâmico do receptor colinérgico nicotínico alfa 7 na manutenção da homeostase energética. É bolsista FAPESP vinculado ao CEPID OCRC da UNICAMP.

 

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