A relação entre Diabetes tipo 2 e a maior gravidade da COVID-19: o que sabemos?

Níveis de glicose alterados podem comprometer a saúde de pessoas com diabetes tipo 2 na infecção pelo SARS-CoV-2?

A COVID-19, nome da doença causada pelo vírus SARS-Cov-2, causou preocupações de saúde pública em âmbito mundial nos últimos meses. Esse vírus zoonótico, conhecido assim pois passa dos animais para os humanos, ao entrar em nosso organismo é capaz de se ligar em nossas células e ensiná-las a produzir muitas cópias dele mesmo. Como sabemos até o momento, algumas comorbidades, tal como a Diabetes, piora os desfechos clínicos dos pacientes quando infectados por esse vírus.

A Diabetes mellitus é uma doença metabólica que tem como característica um nível elevado de açúcar no sangue, chamado de glicose. Para se ter uma ideia, a cada 11 pessoas adultas, uma tem diabetes. Além disso, segundo as estimativas da Federação Internacional de Diabetes, até o ano de 2045, mais de 600 milhões de adultos terão diabetes em todo o mundo.

Conhecida como combustível do nosso metabolismo, a glicose é a nossa principal fonte de energia. Após nossa alimentação, os carboidratos que comemos são quebrados e transformados nesse tipo de açúcar. Para que a glicose seja utilizada no nosso organismo é necessário a ação de um hormônio, produzido no pâncreas, chamado de insulina, ele faz com que a glicose entre nas células controlando sua taxa no sangue. A Diabetes mellitus tipo 2, manifestação mais comum correspondendo em cerca de 90% de todos os casos, pode acontecer de dois jeitos: ou o seu corpo está produzindo pouca insulina ou existe algum defeito nela em promover a entrada de glicose nas células, processo chamado de resistência à insulina. Sem a ação da insulina, os níveis de glicose no sangue aumentam muito, denominado como hiperglicemia, causando os sintomas e as complicações do diabetes.

Um estudo publicado na revista científica Journal of Diabetes Science and Technology mostrou que, entre os pacientes hospitalizados com COVID-19 nos Estados Unidos, a diabetes ou a glicemia não controlada, ocorreram com grande frequência. Também observaram que esses pacientes apresentaram maior mortalidade comparando com pacientes sem diabetes. Outro estudo publicado na revista Cell Metabolism avaliou mais de 7.000 pacientes com COVID-19 em Hubei, na China, entre os quais aproximadamente 1.000 pacientes tinham Diabetes tipo 2. Os pesquisadores encontraram que a presença de diabetes aumentou a intervenção médica e a mortalidade, e os pacientes que tinham uma glicemia controlada apresentaram melhor prognóstico.

No Brasil, um estudo conduzido pelo professor Pedro Vieira, membro da equipe do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades da UNICAMP, revelou que níveis de glicose elevados foram capazes de induzir a replicação do vírus e também de promover a produção de citocinas que promovem a inflamação de células que estão presentes nos pulmões, intensificando a infecção pelo SARS-CoV-2.

Diante do que foi exposto, a Sociedade Brasileira de Diabetes desenvolveu o e-Book: “Autocuidado e Diabetes em tempos de COVID-19”, que traz recomendações quanto aos principais cuidados em tempos de pandemia. As recomendações incluem boa alimentação, para manter um bom controle glicêmico; uma rotina de exercícios, mesmo em casa, pois a atividade física aumenta a captação de glicose, melhorando o controle do diabetes, além de ajudar na perda de peso. A monitoração da glicemia capilar, nesta fase de isolamento social, deve ser mais constante e o uso das medicações tanto para diabetes como para colesterol e hipertensão devem ser mantidos conforme a prescrição médica. Para saber mais, você pode acessar o e-Book através clicando aqui.

Monitoração de glicemia em casa (Imagem de Paul Hunt por Pixabay )

Então, o consumo de açúcar aumenta a gravidade pelo vírus causador da COVID-19?

Não é bem assim. Normalmente, os níveis de glicose variam durante o dia. Em pessoas saudáveis, eles aumentam depois de cada refeição e retornam aos níveis anteriores à refeição em aproximadamente duas horas. Mas isso não acontece em quem tem diabetes. Por isso, nesses casos, é extremamente importante controlar os níveis de glicose no sangue, incluindo dieta adequada e exercícios físicos para aumentar a qualidade de vida.

 

 

Referências:

  • Glycemic Characteristics and Clinical Outcomes of COVID-19 Patients Hospitalized in the United States. Journal Diabetes Science Technology. 2020
  • Association of Blood Glucose Control and Outcomes in Patients with COVID-19 and Pre-existing Type 2 Diabetes. Cell Metabolism. 2020
  • Elevated Glucose Levels Favor Sars-Cov-2 Infection and Monocyte Response Through a Hif-1α/Glycolysis Dependent Axis. Cell Metabolism. 2020

 

SOBRE A AUTORA:
Isabella Bonilha – Biomédica, Mestre em Ciências (FCM/UNICAMP), Doutoranda em Fisiopatologia Médica (FCM/UNICAMP). Aluna do Laboratório de Biologia Vascular e Aterosclerose vinculado ao Centro de Pesquisa Clínica, atuando em diabetes, metabolismo lipídico, lesão de isquemia e reperfusão do miocárdio e ensaios clínicos randomizados.

 

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