Compreendendo a inflamação de baixa intensidade e o modo como a alimentação pode influenciar nesse processo.

A inflamação é um mecanismo de defesa presente na resposta ao insulto em nosso organismo. Entretanto, quando ocorre de forma crônica pode representar danos aos tecidos e estar associada a diversas patologias. O tipo e qualidade da alimentação que ingerimos pode induzir ou prevenir o contexto inflamatório em nosso organismo.

Inflamação é um termo muito conhecido na linguagem médica. Durante a vida, nosso organismo precisa reagir a diversos insultos que alteram o equilíbrio e/ou a integridade de nossas células e tecidos. Essa forma como nosso organismo responde a esses eventos chamamos de resposta inflamatória. Os processos inflamatórios estão presentes tanto em um ralado no joelho, típico da infância, quanto em patologias mais graves, como infartos e doenças reumáticas. Nesse breve artigo temos como objetivo entender um pouco mais sobre esse processo e a forma como se relaciona com nossos hábitos alimentares.

O que é inflamação?

O termo inflamação é utilizado para descrever um conjunto de eventos celulares desencadeados em resposta a microorganismos capazes de causar doenças, as lesões e eventos autoimunes. Parece complicado, mas quando observamos o local de uma lesão logo vemos a vermelhidão, o inchaço e sentimos dor. São sinais típicos de que o processo de inflamação está acontecendo, mas nem sempre este processo é tão visível assim.

Sendo assim, percebemos que para que a inflamação aconteça é necessária a ativação de células que recobrem os vasos sanguíneos, o aumento do calibre dos vasos e da permeabilidade vascular, bem como a ativação e atração de células de defesa para o tecido lesionado, a fim de defender nosso organismo e propiciar o retorno ao estado de equilíbrio.

Como o processo de inflamação acontece?

O processo inflamatório envolve muitos tipos de células de defesa neutrófilos, monócitos, linfócitos, entre outros. Essas células desempenham papel preponderante na ativação das células endoteliais e na atração de outros leucócitos para sítio inflamatório através da produção e secreção de algumas substâncias (biomarcadores inflamatórios). Esse processo pode ser dividido de acordo com as características morfológicas em: (1) inflamação aguda, ocorre dentro de minutos ou horas e envolve principalmente a migração de neutrófilos e, em algumas circunstâncias em que o agente indutor não é removido e esse processo tornar-se persistente, (2) inflamação crônica, se caracteriza sobretudo pela atração de monócito e linfócitos. A inflamação crônica pode estar envolvida na formação de várias de doenças crônicas, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes, cânceres e doenças neurodegenerativas como Alzheimer.

Por que falar de inflamação quando o assunto é dieta?

Muitos estudos epidemiológicos e científicos mostram que há uma associação positiva entre o aumento de biomarcadores inflamatórios e hábitos alimentares não saudáveis. São eles: aumento do consumo de gorduras saturadas e açúcares e redução do consumo de fibras, além do aumento das calorias ingeridas. Muitas vezes o resultado desses hábitos aparece na balança em decorrência do aumento de tecido adiposo (aquelas gordurinhas indesejadas).

O que é inflamação de baixa intensidade?

A resposta a dieta desequilibrada não ocorre rapidamente, mas de forma lenta e contínua ao longo da vida. O que as pesquisas científicas mostram é que há um leve aumento da produção dos biomarcadores inflamatórios tanto em tecidos específicos, como tecido adiposo, quanto de forma sistêmica, no sangue. Portanto, estes indivíduos desenvolvem uma inflamação leve, mas persistente ao ponto de estar associada aos danos em vasos sanguíneos ou ainda dificultar a sinalização de alguns hormônios como a insulina.

Alguns cientistas, com base em estudos populacionais, sugerem que o aumento de alguns biomarcadores inflamatórios como proteína C reativa, IL-18, TNF-α, entre outros poderiam ser utilizados como marcadores para aumento de risco de doenças coronarianas futuras. Mostrando o quanto essa inflamação de baixa intensidade pode representar risco a nossa saúde.

O que podemos fazer para adquirir hábitos que melhorem nossa saúde?

As pesquisas mostram que dietas desequilibradas, ou seja, ricas em alimentos saturados como frituras, embutidos, vísceras e carnes gordurosas, fast food, e alimentos ricos em açúcares como doces, chocolate, sorvetes, e balas estão associados ao aumento da sinalização da inflamação.

Em contraponto, a alimentação saudável aparece associada a redução dos níveis de biomarcadores inflamatórios, favorecendo a produção de biomarcadores anti-inflamatórios, contribuindo para a prevenção de condições metabólicas relacionadas à manifestação de doenças crônicas.  A alimentação saudável é caracterizada pela mudança de hábitos e da qualidade da alimentação.

A introdução de alimentos in natura como frutas e verduras além de uso de temperos mais frescos, a mudança da forma de preparo dos alimentos como redução dos alimentos fritos ou reduzir o óleo nas preparações. Importante também evitar alimentos processados ou ultraprocessados. Estes podem ser identificados ao olhar o rótulo dos alimentos, sendo que quanto maior o número de ingredientes listados nos rótulos dos alimentos mais processos sofrem os alimentos para ir para prateleira dos mercados. Então procure selecionar alimentos que possuem o menor número de ingredientes listados. Alimentos com alto teor de gordura trans ou saturada listada nos rótulos também devem ser evitados. Essa mudança de hábitos auxilia então na redução da inflamação e consequente perda de peso melhorando a saúde do indivíduo. Se quiser saber mais sobre alimentação saudável é possível consultar o Guia Alimentar para a população brasileira, e se encontra no site do Ministério da Saúde.

Referências Bibliográficas

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Gonzalez-Muniesa P, Martinez-Gonzalez MA, Hu FB, Despres JP, Matsuzawa Y, Loos RJF, Moreno LA, Bray GA, Martinez JA: Obesity. Nature reviews Disease primers 2017;3:17034.

Ferrante AW Jr. Obesity-induced inflammation: a metabolic dialogue in the language of inflammation. J Intern Med. 2007 Oct;262(4):408-14. doi: 10.1111/j.1365-2796.2007.01852.x. PMID: 17875176.

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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 1. reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014. 156 p. : il.

Redatores:

Suleyma de Oliveira Costa.

Nutricionista e Mestra em Nutrição    pela UNICAMP. Doutoranda em Ciências da Nutrição e do Esporte e Metabolismo (FCA/UNICAMP) e aluna do Laboratório de Distúrbios do Metabolismo, vinculado ao Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, atuando em pesquisa científica estudando os efeitos da dieta hiperlipídica na programação fetal.

Iracema Monteiro da Silva

Possui graduação em Ciências Biológicas pela UNESP. Mestrado em Ciências Biológicas pela UNESP. Atua como docente adjunto na Universidade Paulista-UNIP. Atua como professor efetivo na rede Estadual de Educação do Estado de São Paulo. Doutoranda em Ciências da Nutrição e do Esporte e Metabolismo (FCA/UNICAMP) e aluna do Laboratório de Distúrbios do Metabolismo, vinculado ao Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, atuando em pesquisa científica estudando os efeitos da dieta hiperlipídica no hipocampo. 

Lívia Furquim de Castro

Possui graduação em Biomedicina pelo Centro Universitário Hermínio Ometto – UNIARARAS – Araras/SP, mestrado em Ciências Biomédicas pela Faculdade de Ciências Médicas – UNICAMP – Campinas/SP e doutorado em Ciências Médicas, área de concentração Ciências Biomédicas pela Faculdade de Ciências Médicas – UNICAMP – Campinas/SP. Atualmente é docente da Universidade Paulista (UNIP) – Campus de Limeira/SP – e do Centro Universitário Claretiano – Campus de Rio Claro/SP. Atua no projeto intitulado Efeitos da gordura interesterificada na imunomodulação da mucosa intestinal e em macrófagos peritoneais derivados de camundongos swiss, desenvolvido no Laboratório de Distúrbios do Metabolismo, vinculado ao Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades.

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